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TV e Séries » ENTREVISTA

Série 'Todxs Nós' foge dos padrões e fura bolhas que nem mesmo sabíamos que existiam

Produção original da HBO encerra a primeira temporada neste domingo, 10

Henrique Nascimento Publicado em 07/05/2020, às 17h00

Todxs Nós: Série da HBO discute o não-binarismo e as desestatização da vida
Todxs Nós: Série da HBO discute o não-binarismo e as desestatização da vida - Divulgação/HBO

A campainha toca e Vini abre a porta: "Rafa?", surpreende-se o rapaz ao ver a figura sobre o carpete da entrada. "Oi, primo", cumprimenta Rafa sorrindo, animade. Carrega duas mochilas e um tubo para desenhos, preparade para a nova vida em São Paulo.

Maia, melhor amiga de Vini e colega de apartamento, aparece atrás dele: "Você é prima do Vini?", pergunta. "Prime", responde Rafa. "Oi?", Maia parece confusa. "Eu sou prime dele. Prazer, Rafa", continua, entrando no apartamento.

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Rafa, Maia e Vini formam o trio de protagonistas de Todxs Nós (Divulgação/HBO)

 

A confusão não é só entre os personagens na cena que abre Todxs Nós, série original da HBO que encerra a primeira temporada neste domingo (10), mas também entre o público que vê a não-binariedade sendo discutida descontraidamente em uma produção brasileira, quiçá pela primeira vez.

Em suma, a não-binariedade é um termo que engloba identidades fora dos espectros dos gêneros masculino e feminino. Não-binária é uma pessoa que não se identifica nem como homem, nem como mulher. Ela também pode ser alguém que transita por entre os gêneros, ora se identificando mais com o masculino, ora com o feminino.



Recente, o termo gera confusão por se enquadrar dentro da transgeneridade, ou seja, identidades que diferem daquela com a qual a pessoa foi identificada ao nascer, como são os casos de pessoas transexuais e travestis, e trazer uma ruptura do sistema cisnormativo, que engloba a binariedade e tudo que, por muito tempo, foi considerado como "normal" na sociedade.

Coube a Clara Gallo, jovem atriz conhecida pelos papéis nos longas CalifórniaMãe Só Há Uma, a tarefa de desmitificar o conceito para encarnar Rafa na série: "No Brasil, nunca teve uma produção que falasse dessa possibilidade de se existir no mundo. Assim, fortalece-se essa barreira que existe das pessoas se disporem a ouvir e refletir".

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Para viver Rafa, Clara precisou mergulhar na vida de pessoas não-binárias para entender como elas se sentiam e o que o conceito da não-binariedade representava. Ela define o processo como transformador e, assim como é para Rafa na série, de descobrimento, já que passou a se entender como uma pessoa queer, termo usado para designar pessoas que não se enquadram nos padrões referentes a identidade de gênero e sexualidade:

"Algo que existe muito forte em Rafa e em mim é um impulso de liberdade. Um impulso de ser o que se é ou se descobrir a partir de seus desejos e identificações, sem se deixar restringir por imposições machistas, transfóbicas e racistas tão presentes na nossa sociedade", afirma. Decidide a viver por conta própria, Rafa convence o pai a ficar em São Paulo e tenta tocar a vida como tatuadore, ponto de partida para conhecer outras pessoas não-binárias e mais sobre si mesme e o universo em que está inseride.

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Rafa em um momento de aceitação com a família, que não entende a sua condição como uma pessoa não-binária (Divulgação/HBO)

 

Após se entender como não-binárie, Rafa deixa os pelos do corpo crescer e raspa os cabelos, expulsando de si signos que são atribuídos à figura feminina e tornando-se mais andrógine. Para Clara, as mudanças não foram um problema:

"Eu já não me depilava e sempre tive um jeito que foge dos padrões cisgêneros [de pessoas que se identificam com a identidade de gênero com a qual nasceram]", declarou. "A maior mudança foi raspar o cabelo. Era algo que queria já há algum tempo e foi muito bom. Um presente de Rafa".

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Ao fugir de seu pai, que não aceita a sua condição, Rafa procura o primo Vini por acreditar que ele, sendo gay e fazendo parte da comunidade LGBTQIA+, entenderia a sua condição com maior facilidade, mas não é o que acontece:

"Mesmo sendo gay, [Vini] tem seus preconceitos e dificuldades em assimilar de fato as diferenças que Rafa traz. Acredito que como o Vini, há muitas pessoas dentro da comunidade que também têm dificuldades em assimilar o que é 'diferente'", explica Kelner Macêdo, intérprete do personagem, conhecido por participações no longa Corpo Elétrico e na série Sob Pressão, da Rede Globo. "Mas aos poucos vejo Vini mudando, aceitando, usando a linguagem inclusiva e se envolvendo verdadeira e afetivamente com Rafa".

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Vini tem seus próprios problemas. Ele começa a série em um relacionamento monogâmico e, aos poucos, o namorado tenta impor algumas situações com as quais Vini não consegue lidar e o deixam desconfortável, como sexo a três. Em um dos episódios, ele chega a declarar que não é só porque é gay, que é obrigado a gostar de "putaria", e Kelner defende a postura do personagem como mais um rompimento dos padrões apresentado pela série:

"Sempre estamos elegendo algo como uma referência a ser seguida. Dentro da comunidade LGBTQIA+ não é diferente. Ainda há muito preconceito na própria comunidade", afirma. "O patriarcado está muito impregnado nos nossos corpos e precisamos ficar atentas para não entrar nesse jogo. Dentro da sigla LGBTQIA+ existem trilhões de possibilidades de existências e as escolhas e os caminhos seguidos não devem ser julgados, desde que não deslegitimem ou firam a luta e existência de ninguém".

Vini é interpretado por Kelner Macêdo, do longa Corpo Elétrico e a série Sob Pressão, da Globo (Divulgação/HBO)

 

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Além da dificuldade inicial em entender a condição de Rafa, Vini também não parece tão interessado na militância LGBTQIA+, apesar de fazer parte da comunidade, sempre arranjando uma forma de fugir desses assuntos com bom humor: "O lema da vida do Vini é sempre debochar de tudo e de todos e isso às vezes cruza os limites. Me parece que, de alguma forma, ele se protege por trás desse deboche e do seu humor ácido", reflete Kelner.

A postura difere de Maia, melhor amiga de Vini, que não tem papas na língua e não vê hora errada para defender aquilo que acredita: "Ele não se atém mesmo às militâncias da comunidade, [eles] são contrastantes. E essa relação se estabelece pela negociação. Acho que tanto o Vini tem muito a aprender com as posturas e lutas da Maia, quanto a Maia tem a aprender com as flexibilizações que Vini traz", pondera o ator, que acredita em um maior engajamento de Vini no futuro, conforme a trama se desenvolve.

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Apesar de ser uma mulher cisgênero e heterossexual, Maia não tem dificuldades em aceitar Rafa desde o princípio, antes mesmo de Vini, que é gay. Julianna Gerais, que estreou no audiovisual em Selvagem, longa sobre os movimentos de ocupações contra o fechamento de escolas em 2015, reflete sobre o posicionamento do amigo em comparação ao de Maia:

"Ser gay, como é o caso de Vini, não significa necessariamente aceitar, compreender e respeitar as outras lutas que estão inseridas na sigla LGBTQIA+. Tenho notado que ainda há muito preconceito na própria comunidade quando a assunto é não-binariedade", declara. "Antes da chegada de Rafa, Maia já militava por outras causas que a dizem respeito e, quando Rafa traz o universo LGBTQIA+ para Maia, logo ela entende, aceita e busca respeitar, assim como é o desejo dela das pessoas para com suas causas e lutas".

Vini e Maia são melhores amigos em Todxs Nós (Divulgação/HBO)

 

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As pautas que Maia traz à mistura de Todxs Nós são relacionadas ao feminismo, ao racismo e ao veganismo. Ela é incisiva na defesa do que acredita e, algumas vezes, corre o risco de sacrificar o trabalho e/ou relações pessoais por isso, uma postura que Julianna acredita surgir da motivação pessoal de cada pessoa:

"Devemos colocar na balança as nossas prioridades e se questionar se o ambiente em que estamos inseridos está fazendo jus àquilo que acreditamos. Já o que fazer quando se chega a alguma conclusão, vai de acordo com cada realidade, pois muitas vezes a vida prática nos coloca em situações muito desconfortáveis", afirma.

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Em um momento da série, Maia e Rafa são abordades por policiais. Enquanto Maia é interrogada e intimidada por eles, Rafa é ignorade. Após o momento de tensão, ela fica pensativa e Rafa, que não percebe o preconceito vivido pela amiga, comemora terem se livrado do enquadro:

"Quando falamos de racismo, estamos falando de uma sociedade estruturalmente racista na qual ser uma pessoa branca é ter alguns privilégios (por mais que tais privilégios não sejam notados pelos próprios privilegiados) como, por exemplo, não ser abordada por policiais ou conseguir se inserir no mercado de trabalho com muito mais facilidade", pondera Julianna.

Julianna Gerais estreia na TV no papel de Maia, da série Todxs Nós (Divulgação/HBO)

 

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Tocar em temas tão recentes e/ou delicados pode ser uma tarefa difícil e limitar a série a um público específico que já se interessa ou se identifica com essas pautas. Porém, para os intérpretes do trio protagonista, a produção tem elementos que superam esses obstáculos para se tornar mais ampla e furar algumas bolhas:

"Todxs Nós foi criada para dialogar com a sociedade atual e colocar em pauta questões que são pouco discutidas dentro da teledramaturgia brasileira", afirma Kelner. "Quando temos essas três personagens no centro da narrativa, uma feminista preta vegana, uma pessoa não-binária e um gay, existindo com suas questões, seus sonhos, suas angústias, seus anseios, suas dificuldades e alegrias, trazemos ao foco todas as discussões que esses corpos trazem consigo".

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"Nós sofremos e então estamos gargalhando com algo. Em outro momento passamos perrengue e, na hora seguinte, estamos gozando", complementa Julianna, que acredita que o gênero da série, classificada como uma comédia dramática, ajuda a romper obstáculos. "A partir daí depende do espectador se deixar atravessar pelo que está sendo dito e mostrado. Acho que, de maneira inconsciente, ele capta muita coisa sem perceber, o que é fantástico, mas para trazer à consciência é necessário um mínimo esforço do outro lado", conclui Clara.

 


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