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Cinema » ESPECIAL

Como em Hair Love, vencedor do Oscar, mulheres negras deixam de escondê-los e celebram o amor por seus cabelos

No curta, uma garota negra aceita o seu cabelo volumoso e, com a ajuda do pai, decide assumi-lo como é

Henrique Nascimento Publicado em 18/01/2020, às 11h00 - Atualizado em 09/02/2020, às 22h28

Hair Love mostra a importância de mulheres amarem os seus cabelos, como aprenderam a jornalista Domenica Cristine (centro) e a psicóloga Joann Emawodia
Hair Love mostra a importância de mulheres amarem os seus cabelos, como aprenderam a jornalista Domenica Cristine (centro) e a psicóloga Joann Emawodia - Sony Pictures/Instagram

Com o sucesso de Parasita no Oscar 2020, cuja a cerimônia de consagração dos vencedores foi realizada no dia 9 de fevereiro em Los Angeles, nos Estados Unidos, e consagrou o longa sulcoreano como a primeira produção em língua não-inglesa a ganhar o prêmio de Melhor Filme, um outro vencedor pode ter passado desapercebido. 

Hair Love, vencedor na categoria de Melhor Curta-Metragem de Animação, conta a história de uma garota que, ao acordar em um dia, decide não esconder mais os seus cabelos crespos. Empenhada a estilizá-lo de uma forma diferente, a garota recorre a alguns vídeos que costuma ver na Internet, mas a tentativa acaba frustrada.

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Persistente, ela pede ajuda ao pai, que se assusta frente à ideia de domar o volumoso cabelo da filha e insiste em escondê-lo. No entanto, a garota é firme e, ao apresentar uma razão muito particular para a decisão, o pai a entende e a ajuda a compor um penteado.

Inspirado no livro ilustrado homônimo de Matthew A. Cherry, que também é responsável pela produção do curta, Hair Love pode ser assistido a seguir:

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Ainda hoje, o cabelo da mulher, principalmente o mais comprido, representa a femininilidade e a beleza feminina. No entanto, no caso de mulheres negras, com seus fios cacheados e crespos, ele se tornou sinônimo de inadequação e feiura perante a sociedade, pavimentando um caminho histórico de opressão através do preconceito que intimidou e feriu muitas mulheres, desde a idade mais tenra até a vida adulta, forçando-as a adequar os seus cabelos, de toda a forma, a um padrão estético pré-estabelecido ou, como é o caso da personagem de Hair Love, escondê-los.

Filósofa e militante do feminismo negro, com alguns livros sobre o assunto publicados, Djamila Ribeiro contou à Vogue, em 2017, que nunca sofreu casos de racismo explícitos durante a infância, "mas era sempre a menina que os meninos não queriam como par na festa junina, ou aquela que tinha que se submeter a tratamentos de beleza absurdos para modificar o cabelo, porque o cabelo negro é visto como o cabelo feio".

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Em 2019, após a seleção brasileira perder para a francesa na Copa do Mundo feminina, a jogadora Wendie Renard, artilheira da França, recebeu diversos insultos de brasileiros que miravam, principalmente, o seu cabelo, chegando a ser chamada de "preta do cabelo duro" e tendo seu cabelo crespo classificado, pejorativamente, como "pixaim". Djamila saiu em sua defesa:

"Quantas mulheres negras se violentam para atender a imposição de padrão estético? Quantas feridas causadas no couro cabeludo, na autoestima? Quantas violências no cotidiano escolar? Desde 'não vou dançar com a neguinha do cabelo duro' a 'por que você não alisa seu cabelo?' Só a gente sabe", escreveu em uma publicação à época.

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Para Joann Emawodia, atacar o cabelo de uma mulher negra é mascarar uma situação de racismo estrututal, problema enraizado na sociedade brasileira: "Para a pessoa não falar que é racista, ela fala: 'Seu cabelo é bem melhor se estiver liso' ou 'Seu cabelo é feio, você tem cabelo ruim, seu cabelo é duro'. Ela não está falando da sua pele, também não está falando que não vai se relacionar com você por você ser negra, mas simplesmente por seu cabelo ser 'ruim'".

A psicóloga de 28 anos, embora tenha crescido em um ambiente onde seu cabelo crespo era aceito, passou por um processo de mudança na tentativa de alisar os seus fios ao não se identificar com as pessoas que via ao seu redor: "Mesmo quando eu era bem jovem, a minha mãe já fazia tranças no meu cabelo, mas [o penteado] não era muito comum dentro das salas de aula. Não era o que as outras crianças estavam usando", lembra Joann.

A percepção de ser diferente fez com que ela optasse por mudar para se adequar aos padrões que testemunhava diariamente, só que a experiência não trouxe o efeito desejado. "Por volta dos oito ou nove anos, passei a fazer escova, chapinha, [usar] pente quente, para alisar o cabelo, mas sempre me trazia muita insegurança. Meu cabelo não ficava parecido com o que era esperado de um cabelo liso, então eu sempre ficava frustrada".

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Para contornar a frustração, Joann passou a usar alogamento capilar, atando cabelos lisos aos seus crespos alisados: "Era a única forma de conseguir essa textura de cabelo e me sentir bem naquela época".

Ela usou da tática até os 20 anos quando, ao entrar na faculdade, teve contato com o feminismo negro: "Por conta disso, comecei a perceber que, primeiro, eu gastava muito dinheiro com o meu cabelo e, segundo, era um desconforto, uma dor. Não é só porque eu sou preta e meu cabelo é crespo que eu preciso sentir dor na hora de lidar com ele".

Hoje, a psicóloga declara que a relação com seu cabelo, antes definida por ela como conflituosa, evoluiu para algo saudável: "Passei por toda a transição, cortei o cabelo, voltei a usar tranças, e hoje já me sinto bem mais confortável com meu cabelo", declara. "Eu mudo bastante de cabelo, sempre pensando numa forma de proteger o que eu já tenho e não praticar mais mal às minhas raízes e aos meus fios. Faço estilos, vezes sim, vezes não. Então eu tenho uma relação mais saudável e gosto de quem eu sou hoje com o meu cabelo".

Superadas as frustrações com o seu cabelo, a psicóloga Joann Emawodia assumiu o seu cabelo natural e o utiliza de diversas e criativas formas para se expressar (Instagram)

 

Diferente de Joann, a decisão pela transição capilar da jornalista Domenica Cristine, de 23 anos, foi cunhada no seio familiar, parecido com o que acontece com a protagonista de Hair Love: "Meu pai foi uma das pessoas que mais me incentivou. Na verdade, ele nunca gostou que minha irmã e eu alisássemos os nossos cabelos. Ele sempre foi contra, dizia que o nosso cabelo era lindo. Então eu queria ver como era meu cabelo".

Domenica começou a alisar os seus cachos inspirada na irmã mais velha, Vanessa, pois achou a nova forma linda. Depois, quando chegou ao ensino médio, passou a fazer progressiva para ficar cada vez mais parecida com as colegas de sala e se enquadrar, evitando qualquer manifestação preconceituosa. Ao fim do período escolar, decidiu fazer a transição capilar e conhecer o seu cabelo.

Para incentivá-la ainda mais, o pai a levou à Marcha do Orgulho Crespo, em 2015, onde mulheres crespas e cacheadas se reúnem para celebrar os seus fios, o que ajudou, mas não tornou o processo mais fácil: "Tinha acabado de sair do ensino médio e comecei a pesquisar, a ver vídeos, sobre cabelo natural. Foi um processo doloroso porque é o momento em que você passa a se aceitar e não segue mais padrões de cabelo liso", lembra a jornalista. "Antes de cortar o cabelo, eu estava com a raiz crespa e as pontas lisas, então eu não conseguia ajeitar meu cabelo de uma forma que me sentisse confortável. Eu não conseguia me olhar no espelho e me sentir bem vendo aquela raiz crespa e as pontas lisas".

Na primeira imagem, Domenica Cristine aparece com seu cabelo natural. Ao lado, ainda com os cabelos alisados, ela aparece ao lado dos pais, grandes incentivadores na mudança da jornalista (Instagram)

 

A autoestima é um dos pontos fundamentais da transição capilar, tanto do cacheado/crespo ao liso quanto ao contrário, já que mudanças nos cabelos costumam gerar inseguranças nas mulheres, principalmente quando há uma influência tão forte de um padrão imposto pela sociedade.

O processo acabou mudando Domenica: "Hoje posso dizer que me sinto mais bonita, mas é muito mais do que isso. É algo empoderador. Você consegue ir a lugares e ser aceita do jeito que você é, não precisa mais alisar o cabelo para entrar em determinado padrão. Eu me sinto muito mais feliz agora".

A jornalista também diz que a transição capilar a deixou segura para explorar outras possibilidades com o seu cabelo: "Hoje em dia, não tenho mais medo de cortar o cabelo por achar que vou ficar feia. Recentemente usei trança e percebi que meu cabelo pode ser usado de diversas formas", declara. "Fico muito feliz por isso. Quando quiser fazer uma escova, eu vou fazer. Ou quando quiser fazer tranças novamente. A liberdade capilar é você usar seu cabelo do jeito que você quiser e, o mais importante de tudo, se sentir bem por isso".

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Além de outras particularidades que se repetem na experiência das duas, tanto para Domenica quanto para Joann, a mídia não teve um papel tão importante no processo de transição capilar: "Hoje as mídias têm um grande papel na aceitação [do cabelo]. Em mostrar como funciona, como é o cabelo, como reconhecer o seu cabelo, porque muitas mulheres negras não conhecem o seu cabelo, não sabem como ele é, que forma ele tem", afirma a psicóloga. "Mas quando eu comecei, não tinha tanta influência assim. Se não me engano, a referência de pessoas crespas era a Taís Araújo, que tem um cabelo cacheado, não é um cabelo crespo. Não é comum encontrar mulheres com o cabelo como o meu na televisão".

Na atual novela das 21h da Rede Globo, Amor de Mãe, além de Taís Araújo, há pelo menos outras quatro mulheres negras no elenco principal e, apesar de ostentarem diferentes tipos de penteados, que vão dos volumosos de Taís (Vitória) e Jéssica Ellen (Camila) aos trançados de Ana Flávia Cavalcanti (Miriam), os cacheados de Maria (Verena) e o curto de Erika Januza (Marina), o crespo não é apresentado:

"Por mais que a gente tenha avançado com essa questão de cabelo black, de cabelo afro, as pessoas ainda impõem que você precisa ter o cabelo cacheado, com aquele cacho perfeito e não é assim", complementa Domenica. "[Com a transição] a gente passa a entender que cada cabelo tem uma estrutura e precisamos nos aceitar do jeito que nós somos. Essa frase é um pouco clichê, mas é bem real, e eu acredito muito nisso".

Taís Araújo, Jéssica Ellen, Maria, Ana Flávia Cavalcanti e Erika Januza: atrizes negras ostentam seus cabelos naturais ou estilizados na atual novela das 21h da Rede Globo, Amor de Mãe (Globoplay)

 

Contudo, não é de ignorar que a presença desses cabelos em veículos da mídia tão populares quanto a televisão e o cinema podem gerar um efeito positivo na vida de diversas mulheres negras. É só lembrar o caso da pequena Maria Alice, que se encantou com os fios encaracolados da jornalista Maju Coutinho e viralizou nas redes sociais no ano passado ao se reconhecer na apresentadora do Jornal Hoje.

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A visibilidade que Hair Love traz pode causar o mesmo efeito: o de empoderar mulheres a, assim como a garotinha da história, não esconderem mais os seus cabelos e assumi-los do jeito que são. 

 


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